Todos os posts de Renato Arléo

Estudante de Engenharia Civil. Já foi geek, otaku, nerd, badboy, pseudo-cult, roqueiro, esportista, intelectual. Libertário, hoje vê que é tudo isso e mais um pouco de coisas boas, na medida em que os "rótulos" limitam e a vida é fluida o suficiente para se modificar.

O Brasil perdeu o senso do absurdo

A cada dia que passa o Brasil se revela um cenário de reviravoltas e intrigas que deixaria qualquer seriado americano com inveja. Nenhum roteirista seria melhor para transcrever uma obra mais política quanto o nosso próprio tempo… Um ode teatral que dá espaço ao novo pensamento subversivo moderno. Um pensamento mais auto-confiante, menos patriarcal e comodista.

O brasileiro é um povo que ama o estado e odeia os políticos. O paternalismo e psicologia estatal é enraizado na sua cabeça desde a mais tenra idade. É implantado, de tal forma – e tão profundamente -, que dói arrancar as suas raízes, tal qual uma extração de dente. Fere o ego, fere o sentimento, fere o nacionalismo (ou ufanismo?), fere o orgulho, fere a ideologia. É difícil olhar para toda uma vida, pensamento, consciência, todos construídos em cima de uma base ideológica na qual “o Estado há de prover”. É realmente doloroso olhar para o nosso passado, para a nossa construção individual de pensamento e perceber: “Há algo de errado aí”. Esta humildade é só o primeiro passo… E é, em tempos como este, extremamente necessária.

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I’m Batman!

O governo é a instituição que mais cometeu equívocos em todo o solo verde e amarelo. Não dá para acreditar tanto em uma classe que busca se eleger pensando em seu próprio benefício ou no do seu partido. Vemos o Estado se contorcendo, definhando e implodindo… Uma cobra que morde o seu próprio rabo. Muitos culpam o tal multipartidarismo, culpam o corporativismo, culpam a cultura do “jeitinho”, culpam tudo… Menos a existência, tamanho ou comportamento da máquina em sí. Máquina esta que seria uma instituição tão pura que fora corrompida com o interesse alheio. Esta máquina não é abstrata. Ela é um conceito abstrato concretizado pois é apenas a interação de pessoas, decidindo o destino de outras – e de sí mesmas.

Sou Baiano. Da minha terra vem um ditado: “Todo mundo é comedor de feijão”. Pode parecer bobo, mas ele nivela todos num nível no qual, queira ou não queira, revela que temos as mesmas necessidades e, por fim, o mesmo destino. A máquina política é método de administração de um território forçado por via da coerção física e “legal”. A “legalidade das leis” – ou aceitação/submissão psicológica da mesma a seus subservientes – é a questão mais discutida atualmente. O pensamento patriarcal, que em suma revela uma descrença na capacidade do povo na resolução de problemas – e por consequência uma maior crença e destinação de poder a classe política – é presente no nosso dia-a-dia de tal forma que a própria “Lei” (manifestação no papel de pensamento dos homens, tão falhos quanto quem vos elegeu) é tida como ilibada/intocável.

Pois bem, eu tenho uma surpresa pra você. O poder legislativo, judiciário e executivo são formado por pessoas. O Estado é um agrupamento de pessoas. E você apenas os colocou lá porque acredita, desde o seu berço, que eles são mais capazes do que você para resolver os seus problemas e o das outras pessoas. Este é o grande mal da democracia. E quando este “poder” – de efeito abstrato e psicológico, pois só existe porque você o permite – revela o ser humano por detrás da máscara…

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E por que dói tanto a política e suas endêmicas patologias? Porque entregamos grande parte da administração de nossa própria vida à uma classe que não sabe cuidar nem deles próprios. Somos obrigados a votar, somos programados a confiar, somos – assim como bois marchando ao matadouro – forçados a meter as mãos no bolso e direcionar recursos ao Estado. E a festa acontece debaixo de nossos próprios olhos.

Está mais que provado que o Estado – e suas conturbadas crises através da história – é um recurso extra, à parte da sociedade e, praticamente, insustentável. O capitalismo não precisa de crise pra sobreviver. É uma falácia absurda… Porém o Estado sim. Redirecionando recursos escassos ao seu bel prazer, os sanguessugas da classe regojizam-se em suas poltronas e aproveitam, tal qual um menú degustação, de cada voto apreendido.

O nosso dever e missão é acreditar mais em nós mesmos. Não existem “heróis”, a história provou isto. A política se vende com o rótulo de que a própria sociedade precisa de um “membro estranho” (Estado) sobre ela, organizando-a pois, afinal, nunca seremos capazes de administrar nossa vida. Existe um “contrato social” nunca assinado por nenhum de nós… O Estado se vende (ou “se lucra”) com a mentalidade da incapacidade, da subversão de valores, da descrença. Somos – por natureza – seres inaptos e incapazes. Precisamos da “muleta estatal”. Precisamos de uma mãe abstrata reguladora e interventora na nossa vida. A sociedade nunca teria como reger-se pelas próprias regras, pelo fluxo de mercado e poder aquisitivo, pelas instituições, leis naturais/privadas, pela cultura, pelo fluxo natural. Há, até a mais profunda raiz, a percepção de que somos, no enxugar das lágrimas, seres subestimados. Para quem tem olhos para enxergar, não é o Estado que nos serve… Nós servimos ao Estado.

O efeito psicológico deste pensamento é danoso. Uma pessoa pró-ativa, responsável e empreendedora nunca pensará desta maneira, esperando que do céu caia o feijão e prazer do dia-a-dia. Do céu, lê-se, do Rei, do presidente, do partido, do deputado, do vereador, do político/Estado (sim, eles são a mesma coisa). Política virou religião. A doutrina da salvação pregada pela igreja foi redirecionada a uma personificação das abstrações conceituais e heróicas dos contos de fada e arquétipos infantis, materializados nos seres elegidos. Felizmente, a grande realidade é que a tentativa implantação do paraíso na Terra só teve como consequência o próprio inferno. Não precisamos de pessoas “bem intencionadas”… Precisamos de pessoas competentes, com conhecimento e serventia necessária para atender à necessidade de terceiros. Precisamos de mais fé no indivíduo e suas capacidades.

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A fé política é uma fé morta em origem. Condena-se em decadência e decepção quem crê em algo desta natureza. Em essência, a classe não deseja acabar com a pobreza, com a desigualdade, com nada… Eles precisam disto. A proposta de venda de esperança de 4 em 4 anos é o grande motor da máfia/cúpula estatal. É o aproveitamento da ingenuidade alheia. É tirar doce de criança. Despertai!

A fé no indivíduo é uma fé viva. A fé neste mesmo pode advir de uma fé em um Ser Maior, afinal, é comum a crença de que quando o indivíduo se movimenta em prol de seu benefício próprio e de seus semelhantes, “Algo de Maior” viria ao seu encontro. Budistas, correntes cristãs, espíritas e outras crenças pensam desta forma. “Faça por tí que te ajudarei”. Esta crença individual é única pois, por mais piegas que soe, cada um somos um. Sendo um e, juntos, fazemos o nós. “Somos sós, com outros ao redor”. A crença na individualidade tem de despertar. A benevolência gera tal qual chama quando respeitamos todos os valores individuais. O choque de realidade é preciso para “não esperarmos”. O Brasil está no fundo do poço pois absorveu-se desta “espera” todo o proveito pessoal possível. A mentalidade patriarcal faz de migalhas o seu ouro em pó, distribuído paulatinamente em doses homeopáticas.

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Acorde para sua raridade e força individual!

O Brasil perdeu o senso do absurdo. Mas precisamos acordar. Acordar não para uma “nova classe política”… Ou para novos “representantes do povo”. O Sistema se reorganiza… O Sistema se enquadra, arranja novas vanguardas, amplia-se em novos rumos, refaz-se em velhos caminhos… Constrói um muro novo com velhos tijolos, para citar meu amigo Karl Marx, um dos grandes culpados por tudo isto… Precisamos acordar para nós mesmos. Se é para fazer um trabalho bem feito, quem é que deveria fazer? A sociedade há anos vem fazendo mais por sí mesma que qualquer Estado. O celular, o computador, o carro, o avião, as doações privadas, o transporte de água, sistema de irrigações, descobertas químicas/médicas, o auxílio mútuo e benevolência espontânea fizeram incomparavelmente mais pela sociedade que qualquer tipo de organização estatal. Historicamente, a organização estatal só fez algo pelo o povo quando cumpriu o seu papel mais essencial: Se distanciar dele. Todo o resto é demagogia barata.

Guerras? Estatais. A história flui com mais facilidade quando as mãos peludas não estão presentes. A vida é mais bela sem a intervenção… A Luz pode clarear mais os indivíduos quando não há repressão e os mesmos são livres até para aprender com os seus próprios erros.

Este momento nacional reflete a incapacidade da mentalidade entreguista, doadora… Que responsabiliza a outra pessoa a força de carregar as coisas em seus próprios ombros… E este peso só aumenta com o tempo e com a presença matriz.
Indivíduos do Brasil… Uní-vos!

08 – A Essencial Liberdade

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Este é o podcast da página Engenheiros Libertários. Hoje, tratando sobre o tema “A Essencial Liberdade”.

Neste episódio, Pedro Moutinho reflete sobre a liberdade e responsabilidade para brincarmos com o nosso boneco do Iron Man sem que nenhum outro fator externo interfira na nossa diversão, tudo isso ao som de Bob Marley… E… E… Ééé… Esqueci. Enfim, ouça!

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07 – Exterioridades

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Este é o podcast da página Engenheiros Libertários. Hoje, tratando sobre o tema “Exterioridades”.

Neste episódio, Renato Arléo discorre sobre a necessidade de exteriorizar interioridades deslocando fatores intrínsecos ao ser como se o mundo fosse de vetor unilateral externo adentrando o meio sem a capacidade pessoal de transposição e decisão. Não entendeu? Ouça!

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06 – Apenas O Mesmo Pedaço de Terra

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Este é o podcast da página Engenheiros Libertários. Hoje, tratando sobre o tema “Apenas O Mesmo Pedaço de Terra”.

Neste episódio, Pedro Moutinho discorre sobre a continuidade inerente ao ser humano de classificar e dividir o indivisível, desprendendo-se de amarras sociais e classificações feudais até os dias atuais. Não entendeu? Pois bem, ouça o episódio sóbrio… Por mais que possa parecer difícil. Curta esse mar, onde o vento é Post-Rock.
P.s.: O autor do cast não usou nada para produzí-lo.

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05 – Apenas Um Pedaço de Terra

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Este é o podcast da página Engenheiros Libertários. Hoje, tratando sobre o tema “Apenas Um Pedaço de Terra”.

Neste episódio, Renato Arléo discorre sobre a origem esotérica intergaláctica (ou não) da ordem social e da desnecessidade de organicidades sofrerem artificialidades. Não entendeu? Pois bem, ouça o episódio sóbrio… Por mais que possa parecer difícil. Curta esse mar, onde o vento é Post-Rock.
P.s.: O autor do cast não usou nada para produzí-lo. Bom, talvez só “Pink Floyd”.

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04 – Especial Protestos

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Este é o podcast da página Engenheiros Libertários. Hoje, tratando sobre o tema “protestos”, em especial o do dia 16 de Agosto.

Neste episódio, Pedro Moutinho discorre um tanto sobre a liberdade, livre expressão e tem um “bate-bola jogo rápido” com Renato Arléo, reproduzindo uma entrevista que a equipe do G1 fez conosco.

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03 – Musicologia Libertária

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Este é o podcast da página Engenheiros Libertários. Hoje, tratando sobre o tema “Musicologia Libertária”. Uma coletânea de músicas para entreter e adicionar você.

Neste episódio, Pedro Moutinho discorre sobre as músicas libertárias, seus sentidos, interpretações, motivos, etc. Ainda disponibilizamos a playlist no spotify com as músicas deste episódio! É uma playlist aberta, para que todos possam adicionar músicas e aumentar nossa biblioteca libertária!

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02 – Liberdade, um fetiche

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Este é o episódio 02 da série de podcasts da página Engenheiros Libertários. Hoje, tratando sobre o tema “Liberade, um fetiche”.

Neste episódio, Renato Arléo discorre acerca da gourmetização da liberdade na sociedade contemporânea, seus amigos, inimigos, tiranos, amantes e concubinas.

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01 – Contra o poder da corrupção

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Este é o Primeiro podcast da página Engenheiros Libertários. Hoje, tratando sobre o tema “corrupção”.

Neste episódio, Pedro Moutinho discorre acerca das causas, motivações e traz a sua visão a respeito do tema.

Espero que gostem!

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Libertaté, Egalité, Fraternité, Vinagré…

– Artigo de Vinícius Rodrigues Miranda.

Em primeiro lugar fico muito feliz com a recepção e os comentários que meu artigo de estreia gerou. De um lado muitos comentários positivos, outros nem tanto assim, mas sempre numa atmosfera muito tranquila e deliciosa de debates. Por isso, a fim de impedir que minha intenção na postagem fosse deturpada – como todos os governos de esquerda supostamente fizeram com Marx – vou tentar esclarecer alguns pontos que talvez não tenha ficado tão claro em meu artigo.

“Aham…”

Antes de tudo, quais eram minhas intenções? De forma alguma eu tinha a pretensão de dizer que Jesus de fato era liberal, ou era alguma coisa que em teoria nem existia ainda. Se formos agir com total honestidade intelectual, se me perguntarem se Jesus era comunista ou liberal, o que direi? Jesus era o que ele É. Simplesmente, um judeu, preocupado em transmitir sua mensagem espiritual e não uma verdade política. Ele não tinha quaisquer outras pretensões além dessas e qualquer um que tente afirmar o contrário: ou é um tolo e não sabe o que diz ou está agindo de pura e simples má fé. Minha intenção real era demonstrar como a mensagem cristã (mesmo que despropositadamente) alimentou todo um arcabouço teórico que acabou levando às ideias e filosofias liberais.

Como disse em artigo anterior, Jesus foi apenas um profeta em minha concepção pessoal. Por isso, não pensei na reação e no antagonismo que minhas palavras poderiam criar em alguns cristãos pelo simples fato de usar seu salvador para provar um ponto. Compreendo que usar as palavras de Jesus pode ter soado ofensivo para alguns, e por isso, as minhas mais sinceras desculpas. Por isso, dedico este artigo àqueles que não compreenderam muito bem o que eu queria dizer com toda a história que contei. Dessa vez não vamos focar em Jesus, mas em história. Permita-me guia-lo por essa deliciosa aventura.

Como os cristãos esclarecem de forma brilhante: “Texto sem contexto, pretexto para heresia”, acho importante compreendermos em que contexto o cristianismo surgiu para então compreender como ele alimentou e inflou as ideias liberais no mundo. A verdade é que as escrituras cristãs conseguiram a proeza de justificar todo tipo de maldade – escravidão, perseguições religiosas, caça às bruxas, etc -, mas ao contrário das outras religiões (que por sinal, também justificavam coisas semelhantes e em muitos casos até piores), as filosofias judaico-cristãs foram as principais causas do desenvolvimento do individualismo, o humanismo, o laicismo e, por fim, mesmo que de forma indireta, o liberalismo. Nota: eu disse desenvolvimento, não surgimento, mantenha isso em mente sempre enquanto lê este artigo.

b3fb1432b712a5cb5a9776fa3220d909548be0789fe5e40f37fb604e5d1126c8 Vamos começar pensando sobre como os primeiros cristãos enxergavam o mundo. Para os romanos, Jesus era visto como um agitador político que poderia alimentar os anseios de um messias dos hebreus e incentivá-los a questionar a autoridade do Imperador. Para os escribas e sacerdotes judeus, Jesus era uma ameaça às tradições antigas. Para eles, Jesus desrespeitava a lei de Moisés e colocava sua autoridade pessoal acima dela. Após a morte de Jesus, o cristianismo não tinha chance alguma de sobrevivência. Afinal, tratava-se apenas de uma pequena seita hebraica que, se pegássemos uma máquina do tempo hoje e voltássemos à época, não diríamos que eles teriam qualquer chance de se espalharem pelo mundo e se transformarem no que é hoje. No final das contas, quem foi o grande responsável por espalhar o cristianismo e fazê-lo alcançar o tamanho que conseguiu? Paulo de Tarso, mais conhecido por alguns como São Paulo.

Para que a mensagem de Jesus chegasse aos gentios, Paulo teve o trabalho de separar o cristianismo do contexto sociocultural judaico. Ele sustentava que os seguidores de Jesus, fossem eles judeus ou gentios, não precisavam mais seguir as leis mosaicas que se tornaram obsoletas após a vinda do messias. Para Paulo, Jesus não apenas preenchia as vontades messiânicas dos judeus, mas na verdade, de todos os povos. Para ele, a nova comunidade cristã era mundial e não apenas local. Este novo rearranjo do “cristianismo judaico” abriu margem para que os gentios começassem a se unir em torno da religião que surgia, pois muitos, embora fossem atraídos pelos ensinamentos de Cristo achavam as leis de Moisés rígidas demais para que se convertessem. Embora não sejam claras as intenções de Paulo ao fazer isso é fato que o cristianismo dificilmente teria sobrevivido muito tempo sem essa atitude. Por que estou contando tudo isso? Para que compreendamos o contexto da época. O que atraiu tanta gente nas mensagens cristãs? Normalmente, quando pensamos hoje em cristianismo primitivo já pensamos na Igreja Católica consolidada, tramando perseguições, proibindo a usura, arquitetando a inquisição, queimando livros e pessoas e tentando sufocar a liberdade individual. Mas os caminhos tomados pela Igreja Cristã não dizem respeito às suas origens e nem aos seus primeiros passos. Na verdade, enquanto os protestantes são uma vertente do cristianismo que surgiu em busca de atender os anseios de maiores liberdades, o catolicismo surgiu espontaneamente a fim de atender os anseios de uma melhor organização e garantir maior alcance da mensagem cristã. Os primeiros cristãos – os assim chamados Judeus Cristãos, ou cristãos primitivos – seriam os verdadeiros “donos” do que significava a mensagem de Cristo.

E qual era essa mensagem? Para entender, precisamos ver como eles se comportavam. Não basta dizer uma coisa e fazer outra não é mesmo? E, afinal, como os primeiros cristãos agiam? Ora, o cristianismo surgiu numa época em que a cultura greco-romana passava por um momento de transição: a decadência do helenismo para dar espaço a aspirações místicas e reveladoras. A mensagem cristã não poderia crescer em ambiente mais propício. A sua insistência a respeito de um salvador divino e um Pai interessado na vida do indivíduo, bem como de seu amor fraternal, atraiu muitos homens e mulheres. O cristianismo oferecia ao homem aquilo que nem o Estado mundial romano conseguia oferecer: uma relação profundamente individual e pessoal com Deus e a participação numa comunidade de fiéis que eram sinceramente preocupados uns com os outros.

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Todos eram atraídos pelas mensagens cristãs: os pobres, os oprimidos e (pasme) até mesmo os escravos se interessaram pela personalidade, vida, morte e ressurreição de Jesus, pelo seu amor a todos e sua preocupação com a humanidade sofredora. Eles encontravam apoio espiritual numa religião que ensinava que o valor da pessoa não dependia de seu nascimento, riqueza, educação ou talento – eis aí uma filosofia que (algumas centenas de anos mais a frente) irá alimentar os fervores revolucionários contra os direitos de nobreza. Dessa forma, o cristianismo ofereceu aos homens aquilo que os valores da civilização greco-romana (essencialmente aristocráticos) não podiam oferecer – força interior, senso de dignidade humana e esperança.

Mas a mensagem cristã não seria suficiente para conquistar os fiéis. Entrou aí o papel da Igreja hierarquicamente organizada a fim de espalhar a verdade de Cristo e trazer o mundo espiritual para a Terra. A mesma Igreja que chamava todos os seus membros de irmãos e irmãs, satisfazia à necessidade elementar dos seres humanos de pertencerem a algo. Aquela máxima de que todos são iguais perante a lei, ou a Igualdade tão ardentemente defendida pelos revolucionários franceses anos a frente deve grande parte de seu desenvolvimento numa simples frase espalhada pela Igreja primitiva: Todos são iguais perante Cristo.

Aliás, a fraternidade entre os homens era algo pregado e promovido pela Igreja. Veja bem, o cristianismo atraia as mulheres porque mandava que os maridos tratassem as esposas com bondade, fossem fiéis e sustentassem os filhos. A igreja promovia assistência aos pobres e enfermos, recebia escravos, pecadores, criminosos e todo tipo de sorte de gente, e estendia sua mão de fraternidade e conforto em momentos de dificuldade. Temos aí os conceitos primordiais de “Igualdade e a Fraternidade” que quando desenvolvidos e melhor alicerçados irão incitar as revoluções liberais no futuro.

Sobre o racionalismo e a liberdade de autoconsciência, é verdade que os primeiros escritores cristãos – aqueles cujas obras foram reconhecidas pela Igreja – foram essencialmente conservadores. No que diz respeito à filosofia clássica (o uso da razão) eles apenas encontravam falhas e erros. Para eles, a verdade de Cristo era perfeita em si só e não precisava de mais nada para completa-la. Eles temiam que os estudos dos clássicos contaminassem a moral e a verdade cristã e promovesse a heresia. Na concepção destes primeiros autores não poderia haver meio-termo entre racionalismo greco-romano e revelação cristã.

Mas não podemos também fingir que não havia dissidentes que discordavam e defendiam o valor do estudo da literatura clássica. Para eles o conhecimento da filosofia grega e do racionalismo ajudava os cristãos a explicarem suas crenças de maneira lógica e responder com mais inteligência às críticas dos pagãos a respeito dos ensinamentos de Cristo. Nesse esforço, esses “dissidentes” promoveram uma espécie de “helenização do cristianismo”. Esse primeiro movimento deu origem mais tarde aos Escolásticos como Tomás de Aquino e outros tantos pensadores da igreja que (futuramente) alimentaram o humanismo clássico, que deram munição para o Iluminismo que, por sua vez, originaram os ideais liberais.

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Os dois pilares da tradição ocidental advém, em última análise, das tradições judaico-cristãs e do humanismo clássico. Assim como o cristianismo, o humanismo clássico enfatizava a importância do indivíduo, pois seu valor real vinha de sua capacidade de pensar racionalmente, criar, modelar e estruturar seu caráter e sua vida de acordo com padrões racionais. Na visão cristã, o indivíduo é extremamente importante para Deus, pois ele se preocupa com todas as pessoas e deseja que todos os homens e mulheres passem no portão dos céus. Há uma preocupação na propagação do amor e o cuidado com o próximo.

No final das contas, depois de toda essa história, podemos dizer se a Igreja era ou não liberal? Uma resposta sincera? Não. Quem é liberal? Ora, assim como Jesus era só Jesus, o liberal é só o liberal. Quem acredita nos princípios de liberdade individual, direito à vida e propriedade privada basicamente pode ser chamado de liberal. Os primeiros cristãos não estavam preocupados com livre-mercado e conceitos de economia. Sua maior preocupação, assim como a de Jesus, era atender uma crescente demanda espiritual na comunidade. Simples. Mas a influência e os fundamentos que eles deram para o surgimento do liberalismo são inegáveis. Até mesmo a Igreja Católica, mesmo com todo seu autoritarismo e tentativas de sufocar a liberdade em muitos momentos, teve grande parcela de responsabilidade nisso – os escolásticos já eram do movimento católico, por exemplo.

O cristianismo defendeu muitas posições controversas e antiliberais? Sim, mas por outro lado também foi o responsável pela ascensão das ideias de liberdade, individualidade, igualdade política, fraternidade e tantas outras defendidas pelos liberais de hoje. Basta observar que estas filosofias não se desenvolveram em países muçulmanos, nem hindus e nem taoístas, mas primariamente nos países ocidentais e cristãos. Por que é tão importante nos lembrarmos disso? Hoje em dia é comum – principalmente por parte da esquerda – questionarem os valores ocidentais e exprimirem grande desdém pelo humanismo que atribui um grande valor aos seres humanos, proclama o desenvolvimento do potencial do indivíduo e coloca no centro de toda a existência o ser humano racional, dono de si e autônomo. Seus discursos e falácias são tão aceitos, pouco combatidos e propagados que muitas pessoas têm vergonha de estarem inseridas na cultura ocidental.

- Veja este ser inserido na cultura...!
– Veja este ser sócio-cultural…! Tão livre e tão frágil. Assinaste o contrato social?

Em seu chorume de falácias, os pós-modernos (esquerdistas, new left, chame-os como quiser) apontam os abusos históricos cometidos pelo Ocidente como prova de que falhamos: escravidão, imperialismo, racismo, sexismo, exploração de classe, devastação do meio ambiente, marginalização dos pobres e mulheres e outras minorias perseguidas. Muitas críticas possuem seu fundo de verdade, mas devemos compreender que apesar de todas as deficiências, a tradição Ocidental trouxe outros tantos grandes benefícios para nós: a tradição da racionalidade que nos trouxe uma maior compreensão científica do Universo e os instrumentos para a utilização da natureza em prol do benefício e do desenvolvimento humano; a tradição das liberdades individuais, que afirma a capacidade do homem e da mulher de alcançarem autonomia ética; a tradição da igualdade, que busca tratar a todos igualmente perante a lei e que hoje impulsiona a busca global por justiça social e os direitos humanos.

Por favor, não estou afirmando que o Ocidente é um poço de ética e moralidade. Não desejo eximir os ocidentais de sua parcela de culpa por atrocidades cometidas em nome de falsas premissas. É verdade que se quisermos continuar avançando como sociedade precisamos extirpar para sempre todas as ideias irracionais que envenenaram (e ainda envenenam) as percepções dos indivíduos, como o racismo, a homofobia, o sexismo, o estatismo e o etnocentrismo. Mas da mesma forma é preciso que nos lembremos das origens de nossas tradições filosóficas e continuemos a afirmar os valores essenciais dessa herança. Não podemos permitir que esse legado inestimável seja simplesmente negado ou descartado apenas porque não correspondem aos anseios de ideologia x ou y.

Basta dar uma pequena olhada na história do século XX e perceber que é nos momentos de crise que as pessoas tendem a perder suas raízes morais e sua bússola ética. É nesse derradeiro momento, quando perdermos nosso chão e nossa confiança nas heranças filosóficas ocidentais – o individualismo, o racionalismo e humanismo – é que nos tornamos um bando de bárbaros civilizadamente organizados, prontos para cometer as maiores atrocidades e crimes em nome da coletividade e em busca de “uma nova liberdade, ou uma nova democracia, ou uma nova forma de ver o mundo”.

Por favor, voltem seus olhos para os clássicos.

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