Capitalismo e meritocracia: Essa combinação também deu certo!

Como vão nobres indivíduos?

Volto aqui mais uma vez para continuar a nossa série de artigo-resposta sobre porque o capitalismo deu certo, ao contrário do que afirmou Tanaka em seu texto compartilhado na Internet.

Esta é a terceira parte da série, então se você não leu as duas primeiras, faça isso e depois volte aqui:

>> Clique aqui para ler a Parte I

>> Clique aqui para ler a Parte II

Você já leu? Ótimo, acompanhe comigo nessa jornada.

No artigo anterior falei sobre como é natural que indivíduos busquem fazer o máximo para transferir os custos daquilo que fazem a fim de não serem responsabilizados pelas consequências de seus atos. Mostrei que acusar o sistema capitalista como responsável pela degradação ambiental é simplesmente confundir o resultado de algo como sua causa primária. A sociedade capitalista trouxe para nós uma explosão de prosperidade, qualidade de vida e crescimento sem precedentes na história da humanidade e se queremos conservar este progresso devemos ter em mente que o livre-mercado e as trocas voluntárias não são inimigos, muito pelo contrário, são aliados para ajudar a restabelecer o equilíbrio.

Assim como os ambientalistas, os liberais nutrem uma preocupação sensata pela comunidade, pela paz, pela ordem e prezam pela boa administração dos recursos escassos. No artigo anterior eu enfatizei a importância da associação civil e da colaboração entre indivíduos (não entre Estados) para resolver problemas globais. Mostrei que aqueles que seguem o credo liberal devem sempre pensar em como as instituições do Estado democrático e os da economia de mercado devem se relacionar para alcançarem o equilíbrio adequado. A verdade é que nossas instituições (sejam elas traduzidas na cultura, nos hábitos ou em instituições materiais) nos incentivam a fazer coisas boas – como buscar maneiras novas e mais eficientes de trabalhar ou de cooperar com nossos vizinhos ao invés de tentar matá-los. Enquanto outras instituições têm o efeito oposto: recompensam o mau comportamento, incentivam o roubo de propriedades e fazem as pessoas preferirem desperdiçar seu tempo fazendo absolutamente nada do que produzirem algo.

A solução liberal para o problema ambiental é buscar – através do poder das instituições – incentivos adequados para fazerem com que os indivíduos assumam a responsabilidade pelos custos de seus atos e parem de externalizá-los. Ou seja, como podemos trabalhar nossas estruturas institucionais para levar o ser humano a utilizar da melhor forma a sua inteligência e como estruturá-las de maneira a minimizar o mal praticado pelos indivíduos?

Essa resposta já existe e ela não passa pela reinvenção da roda, nem pelo fim da sociedade capitalista e tão pouco pela destruição da sociedade Ocidental como cultura. Como Tocqueville afirmou é “só com a ação recíproca entre os homens que os sentimentos e as ideias se renovam, o coração se engrandece e a mente humana se desenvolve”, ou seja, apenas através da associação voluntária, traduzida na força da iniciativa privada e da sociedade civil é que poderemos adaptar os novos tempos às novas demandas.

Por outro lado, em um artigo intitulado ‘Como privatizar o mar, o ar, as florestas e todos os recursos naturais irá salvar o mundo do cataclisma global’ enfatizei a importância da iniciativa privada para solucionar nossos problemas com o meio ambiente. Mostrei que um dos maiores incentivos que podemos oferecer aos homens para que administrem seus recursos com sabedoria é torná-los proprietários destes bens. Neste caso, estaremos apelando ao mesmo princípio que os pensadores liberais compreendem melhor do que ninguém: a busca individual para atender seus próprios interesses.

Note que em todos os artigos que produzi até o momento falei muito sobre uma coisa chamada Responsabilidade. Mas será que entendemos o que isto significa e a importância dela em uma sociedade livre? Mais ainda… Por que é importante compreendermos esse ponto para respondermos adequadamente as afirmações de Tanaka quando ele afirmou que a nossa sociedade produziu um bando de escravos do sistema e que a meritocracia não é um modelo justo?

Por favor, me acompanhe, vou tentar explicar isso de forma simples.

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. […] E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra.”

Se você não conhece a bíblia, é algo mais ou menos assim que rola lá!

Se você não nasceu ontem – ou não faz parte de outra cultura – com certeza conhece bem a narrativa bíblica de Adão e Eva e seu fim trágico com a expulsão do paraíso. Por incrível que pareça, toda a questão (e todo o entendimento) que podemos ter sobre a responsabilidade individual e a meritocracia, pode ser encontrado na Bíblia, logo em seu primeiro capítulo. Na narrativa bíblica, o ser humano que antes recebia tudo em abundância das mãos de Deus, foi condenado ao trabalho para ter que se sustentar, pois como Deus disse: “[apenas através do] suor do teu rosto comerás o teu pão”.

Vivendo aqui na Terra, o ser humano na busca pelo seu próprio sustento não demorou em descobrir que os recursos na natureza eram escassos, ou seja, poderiam vir a acabar – mesmo quando estes pudessem ser encontrados em abundância. E a coisa ficava ainda pior para o pobre Adão: agora ele precisava trabalhar para conseguir garantir seu próprio sustento. Ao contrário do que ele estava acostumado no paraíso, as boas coisas da natureza não vinham de forma automática. Ele precisava produzi-las. Se ele quisesse comida, precisava plantar ou caçar. Se quisesse uma casa, precisava colher materiais na natureza e ter o conhecimento adequado para construí-la.

Mas a coisa fica ainda mais interessante para Adão e Eva, pois eles logo descobriram que muitos recursos que precisavam não estavam ao alcance de suas mãos e sim em outras regiões distantes, ou simplesmente eram difíceis demais para conseguir – seja por exigirem determinados processos produtivos que exigiam um conhecimento específico ou eram arriscados demais para obter.

Poxa vida, muita coisa para lidar né?

Mas logo Adão e Eva descobriram que eles não estavam sozinhos na Terra. Haviam outros seres humanos com eles. Que felicidade! Eles não demoraram a entender que se pudessem contar com a colaboração de outras pessoas para poderem alcançar seus objetivos eles iriam alcançá-los muito mais rápido do que se o fizessem sozinhos.

Isso com certeza deve ter surpreendido Adão e Eva quando chegaram na Terra!

Adão entendeu que ele não precisaria ser um especialista em construção, em plantação, em caça e em artesanato – tudo ao mesmo tempo – para sobreviver na Terra. Ele tinha a opção de se especializar e então trocar seus serviços por moedas. Esse dinheiro seria então utilizado por Adão para que ele pudesse adquirir as outras coisas que ele não adquiriu enquanto dedicava tempo e energia em uma determinada atividade.

Que sensacional!

Adão e Eva descobriram o reino das trocas voluntárias.

Seres humanos cooperando voluntariamente para juntos conquistarem suas metas pessoais. E eles faziam tudo isso debaixo das ordens de um planejador central? De maneira nenhuma. Cada indivíduo estava unicamente interessado em seus objetivos – como, por exemplo, adquirir mais daquelas moedinhas para então comprarem mais coisas que de outra maneira eles não teriam tempo, nem conhecimento e nem energia para adquiri-las. Como Adam Smith perfeitamente descreve “não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que ele têm pelos próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor-próprio, e nunca falamos de nossas necessidades, mas vantagens que eles [os outros seres humanos] podem obter”.

Nesse reino das trocas voluntárias, Adão também descobriu algo muito interessante. Ninguém o valorizava pelo que ele sabia fazer, mas sim pelo que ele fazia com as coisas que ele sabia fazer. No planeta Terra, o sucesso de um indivíduo não dependia de suas habilidades especiais, mas sim da utilização adequada destas habilidades.

Quando Tanaka bota em dúvida se a meritocracia é um sistema de valor justo, ele na verdade demonstra sua falta de compreensão quanto ao termo. A verdade é que a meritocracia não é um modelo baseado no esforço, no sentido de que se eu dedicar X horas a determinada atividade eu serei remunerado de tal maneira. Muito pelo contrário, trata-se de um modelo baseado na aplicação das habilidades e no quanto elas valem para a sociedade. Trata-se de um sistema que recompensa o êxito das pessoas em transformar suas capacidades em serviço concreto que seja útil aos outros.

O mérito como valor permite que recompensemos uma pessoa que, por acidente enquanto cuidava do seu jardim, descobriu a cura para alguma doença, enquanto nenhum valor é dirigido a um cientista que passou anos enfurnado em um laboratório tentando descobrir como acabar com a mesma doença. Uma sociedade que recompensa os indivíduos pelo uso correto de suas habilidades (e não pelo tempo ou esforço dedicado a adquiri-las) é uma sociedade que incentiva a produtividade e a eficiência. Por outro lado, uma sociedade que recompensa os indivíduos pelo simples fato deles terem habilidades, é uma sociedade que incentiva a preguiça, a improdutividade e o mau comportamento. Do que nos adianta ter um matemático que não calcula? Pra que vai nos servir um engenheiro que não constrói? Que utilidade tem um professor que não ensina? Apenas a meritocracia é capaz de dar aos homens o justo valor pelo seu trabalho.

E de fato, uma sociedade realmente livre permite que cada indivíduo descubra como ele pode fazer o melhor uso de suas habilidades. Ninguém possui o “direito de exigir” uma posição específica no ordenamento social. Dizer o contrário é afirmar que algum órgão central acima de nós deveria ter o direito e o poder de definir a posição de cada um de nós na sociedade. O maior ressentimento das pessoas com relação à meritocracia advém do fato de que elas também têm medo de serem livres e de descobrirem por si mesmas quais são seus melhores talentos e como usá-los adequadamente.

Tenho grande apreço por Sartre (embora ele fosse marxista) e suas contribuições intelectuais ao Existencialismo. Sabiamente ele demonstrou que o ser humano tem medo da liberdade e prefere uma vida onde ele pode atribuir aos outros a responsabilidade por tudo, do que lutar pelo direito de descobrir por si mesmo como fazer o uso apropriado de suas capacidades.

Quem é Foucalt na fila do pão?

E é exatamente isso que uma sociedade livre faz: ela oferece a oportunidade para que os indivíduos possam procurar por si mesmos uma posição adequada, com os riscos inerentes e a incerteza com relação ao sucesso. Quanto mais um indivíduo cede a tentação de atribuir aos outros seus fracassos, mais descontente e ineficiente ele se tornará.

As pessoas argumentam que a sociedade não é justa porque alguns indivíduos nunca descobriram como utilizar adequadamente seus talentos. Mas quem é melhor do que o próprio indivíduo para estabelecer isso? Essa é uma pergunta que sempre fica sem resposta. Essa é a psicologia por trás daqueles que questionam a meritocracia como base para recompensar o resultado do serviço dos homens: ALGUÉM tem que fazer, mas quem? Não sabemos. Como Ruy Castro maravilhosamente sintetizou “A ambição universal dos homens é viver colhendo o que nunca plantaram”.

As pessoas não percebem que o mundo não é mais dado como era no paraíso. A natureza não provê o homem com satisfação automática dos seus desejos, e o fato de alguém querer algo não implica necessariamente que ele é merecedor deste objeto. Veja, por exemplo, bens imateriais como o amor. Muitas pessoas querem ser amadas, mas se elas não trabalharem para descobrir o que significa o amor e se tão pouco pararem para refletir que tipos de valores são requeridos para ser amado, elas dificilmente terão uma vida amorosa feliz e realizada.

É por isso que uma sociedade livre, baseada no voluntarismo entre os homens, que os respeita como seres autônomos e independentes, capazes de pensar por si mesmos e livres para perseguirem seus próprios objetivos, e serem recompensados de acordo com o resultado do seu esforço (e não simplesmente pelo esforço) é, portanto, uma sociedade de progresso, que continuamente avança para a aquisição de mais riquezas e prosperidade.

E se você ainda tem dúvidas quanto a Meritocracia, sugiro que leia este meu outro artigo publicado no EPL Minas: “Como a meritocracia salvou a América”. Garanto que será uma leitura tão enriquecedora quanto.

Eu pretendia falar melhor sobre a questão da Responsabilidade como um dos fatores para a liberdade, mas guardarei para o próximo artigo.

Abraços e até a próxima, galera.

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2 comentários em “Capitalismo e meritocracia: Essa combinação também deu certo!”

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